quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Impressões da Holanda

Gosto da Holanda. Não só porque é a residência corrente de uma determinada pessoa que me dou ao trabalho de visitar tão frequentemente quanto possível, mas também porque é de certa maneira o oposto de Portugal. Não que não goste de Portugal, mas seria preciso mentir para dizer que não me frustra a verbosidade excessiva da nossa cultura, a tendência para deixar coisas importantes por dizer e cobrir o vazio com floreados de linguagem, a tendência de muita gente para oscilar entre o legalismo burocrático com laivos de absurdo (ainda ontem perdi grande parte do dia para inventariar o conteúdo do meu ex-apartamento com o meu ex-senhorio - não estou a exagerar quando digo que envolveu contar colheres e garfos...) e a amoralidade afável de quem leva o nepotismo ao extremo de arriscar de coração ligeiro as posses e vidas de outros.
Ora a Holanda é o oposto de Portugal em vários aspectos. O terreno é tão plano como o nosso é enrugado. As pessoas tão directas como as nossas são "educadas". Tanto que às vezes é excessivo: posso fartar-me da tortuosidade do terreno e das mentes portuguesas, mas o terreno e mentalidade holandesa é tão direito que pode cortar. Há a vantagem da honestidade, de se poder ter uma conversa com alguém e saber que estão a dizer o que pensam. Há a desvantagem de às vezes a honestidade poder chegar a extremos excessivos. Além disso, em troca de um carácter nacional tão mais sucinto e coerente que o nosso, falta-lhes o cinismo de civilização velha que nós temos, o que explica os laivos de patriotismo (talvez nacionalismo) que são mais evidentes na sociedade holandesa e que nos parecem um pouco ridículos...
Ora, num país tão sério e direito, uma pessoa com um determinado tipo de mente (infantil) acaba por descobrir alguma diversão acidental. Vêm-me à cabeça duas coisas: o rabobank e a sissy-boy.
Rabobank (http://www.rabobank.com/) é o nome de um dos grandes bancos holandeses, e vi-o pela primeira vez quando passeava por Amsterdam. Para descrédito da nossa nação, desatei a rir, tal como os portugueses que estavam comigo... Mais tarde, em conversa com um colega holandês, descobri que era possível pedir um Rabocard - aliás, ele tinha um, por coincidência no bolso traseiro! Confesso que se acendeu em mim a ambição de um dia ser cliente do Rabobank e ter um Rabocard, que transportaria orgulhosamente no bolso traseiro das calças e usaria como desculpa para dizer coisas tão hilariantes como "Pára de me tocar no Rabocard!"...
Sissy-boy (http://www.sissyboy.nl/) é o nome de uma cadeia de lojas holandesa. Uma com muito sucesso... Sim, nesse país altamente anglófono há milhões de homens que dizem orgulhosamente "I shop at Sissy-boy"! Obviamente precisei de ser persuadido (leia-se puxado) para entrar numa destas lojas. Esperava o pior, mas encontrei uma loja com roupa para homem (da normal, não da que se esperaria numa loja chamada "Mariquinhas"), artigos para casa, jornais e livros... Acabei por ficar algo desapontado: desfez-se na minha imaginação a imagem quase mitológica de um sítio em que homens adultos entravam para experimentar roupa de mulher de tamanho 58 e roupa de motoqueiro sem nádegas. Já não posso dizer com tanta convicção "Malucos dos holandeses!"...

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