quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ovos moles

Encontrava-me eu procurando algo de interessante para ver na TV na tarde de sábado (um exercício difícil) quando me deparo com um programa (o nome é irrelevante para o caso) onde estão a entrevistar indivíduos que vestem uma indumentária boa para uma encenação da época Renascentista - amarela com chapéus e cordões castanhos. Estes senhores pertenciam (e pertencem) à confraria dos ovos moles.
Sim eu também fiquei surpreendido com a noção de que se podia fazer confrarias de doces (só conhecia as de vinhos e a da sopa). Mas mais do que assinalar este (des)interesante facto, vou acrescentar mais algumas informações que estes senhores divulgaram.
Antes de mais, apesar desta confraria ainda não ter completado um ano, já conseguiram que Portugal possa dizer à boca cheia que possui mais um "primeiro...". Neste caso o primeiro doce a nível europeu com uma denominação de origem protegida. Isso mesmo os ovos moles vêm da região de Aveiro e quem disser o contrário pode ser julgado (OK vender não dizer). Ora se estes senhores conseguiram isto em menos de um ano, e ainda dizem que pretendem fazer mais iniciativas de divulgação, ficarei muito surpreendido se este senhores não elevarem os ovos moles a Património Gastronómico da Humanidade (se este galardão não existe deveria existir. Temos de pressionar o Guterres para pressionar a ONU a criá-lo). Isto abrirá caminho a que a nossa comida quase toda receba este mesmo estatuto.
Outra coisa interessante foi quando disseram que os ovos moles tinham sido criados pelas freiras para curar os enfermos. Isto mostra como funciona a mentalidade tuga, pelo menos no que a comida diz respeito. Ora pensem: que outro povo se lembraria de tentar curar doentes alimentando-os com um doce feito de gemas, açúcar e água? Assim, ao menos, se não se curassem morriam um pouco mais felizes. A sério, que doenças é que os ovos moles podem curar? Depressão? Má nutrição? Deve ser por isso que há tantos doces conventuais... "Ali o senhor Asdrúbal não melhorou nem com os papos-de-anjo nem com os ovos moles", "Dá-lhe barrigas-de-freira que o senhor Virgolino arrebitou um bocadinho com elas. Pelo menos antes da tuberculose o levar...".
Eu proponho que façamos mais confrarias. Se é para termos reconhecimento e trazer camónes podíamos fazer as confrarias: da farinheira, do chouriço de sangue, do queijo da ilha, do queijo da serra, do fiambre da perna extra, da sopa de peixe, do camarão de Espinho, do choco frito, do bacalhau à lagareiro (o bacalhau é da Noruega mas a receita é nossa), da maçã bravo de Esmolfe, da pêra rocha, do vinho verde (pera essa já deve existir), do tremoço, da mini, do presunto de pata negra, das tortas de Azeitão, dos bolinhos de maçapão, da caldeirada, etc. O que me deixa verdadeiramente o orgulho patriótico em cima é o facto de que podia enunciar sem grande esforço 50 ou mais produtos que a mereceriam.
E uma última coisa: imaginem as cores dos fatos destas confrarias. Sobretudo a da caldeirada...

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