A posta do Avatar
Antes de tudo, spoiler alert! Pessoalmente não acho que a história do filme seja de todo surpreendente, mas não quero que depois venham dizer que vos estraguei o Avatar, seus choramingas.
Fui ontem ver o último filme do James Cameron e a minha reacção foi, digamos, mista. Por um lado, há a beleza espectacular do filme - efeitos visuais sem falha, provavelmente o melhor 3D feito até à data, etc., etc. Isto já foi analisado e louvado ad nauseam por todos os críticos; quanto a efeitos visuais e sonoros, o filme é mesmo muito bom. Até aqui tudo bem. No entanto há um problema com o filme. É menor, talvez até desprezável, e sinto-me um pouco picuínhas ao salientá-lo. O problema é a história!
O primeiro problema é, muito simplesmente, que depois de ter visto o trailer eu já sabia a história - há uns extraterrestres parecidos connosco ao ponto do implausível mas perdoável, só que são grandes, azuis e têm uma cultura que deliciaria todos os adeptos do conceito do nobre selvagem: respeitam a natureza, são xamânicos, pedem desculpa aos espíritos dos animais e desconfiam dos estranhos mas mesmo assim deixam-nos habitar entre eles para tentar curar a sua "cegueira". Chamam-se Na'vi. Há os humanos que são mauzinhos, muito americanos (make no mistake) dependem da tecnologia e dão tiros aos pobres dos estrumpfes. Desculpem, Na'vi. E há um humano que de alguma maneira se torna um Na'vi, vai viver entre eles, aprende a sua cultura, apaixona-se por uma estrumpfe (desculpem, Na'vi) e ajuda os azulões a lutar contra os maus dos humanos. Parece-vos familiar? A mim também parecia, e passei o filme todo a ter flashbacks do Dances with wolves, do The Last Samurai e de todos os outros filmes que têm este tipo de história. E claro, como nos outros dois filmes, o protagonista (um fuzileiro branco americano) torna-se, essencialmente, um Na'vi melhor que os Na'vi. Basta substituir "Na'vi" por "índio" ou "japonês da classe samurai" e percebem porque é que me lembrei dos outros filmes.
O segundo problema da história é a ingenuidade da caracterização dos Na'vi: são tal como nós, mas grandes, azuis e bonzinhos. Ah, e honrados, muito honrados. Mas são psicologicamente como nós. Serei o único a ver aqui um paradoxo!? Se calhar é de serem tão inocentes e unos com a Natureza. Claaaro. Por outro lado, são caçadores recolectores que usam arcos e atacam as presas sem aviso. Como é que decidem atacar os maus da fita? Ataque frontal, claro! Contra mechs e helicópteros. Com arco e flecha. Nem lhes ocorre usar tácticas de guerrilha. Nem ao raio do fuzileiro que os está a comandar! The stupid, it burns.
O terceiro problema é a completa estupidez dos humanos envolvidos, excepto os bons da fita. O tipo que manda nas operações de minagem no planeta é estúpido e completamente inepto, e parece completamente alheado do facto de estarem num planeta diferente. O chefe militar é um sociopata, mas parece quase indestrutível. Quase que aplaudi quando finalmente o mataram. Claramente foi contratado não tanto para chefiar operações militares mas mais para ir à frente dos tanques como protecção extra. Seria de pensar que ao gastar milhões numa missão a outro planeta, a Big Evil Corporation que os enviou conseguisse arranjar melhor que um gestor saído do Dilbert e um híbrido entre o Terminator e o sargento do Full Metal Jacket. E claro, quando a pura estupidez dos chefes os põe em confronto com o planeta inteiro, os outros humanos seguem-nos cegamente. Ninguém pensa em amotinar-se e voltar a casa com notícias da morte infeliz do par por asfixia autoerótica...
Talvez esta estupidez terminal tenha a ver com outra coisa que me parece claramente surreal quanto aos invasores humanos: são todos muuuuito claramente americanos. Tão americanos que dói. Péssima representação da espécie humana.
Se ainda não viram o filme, recomendo que vejam. em digital, com óculos 3D e tudo. Prestem atenção à imagem espectacular, a arte envolvida em representar o céu visto de uma lua de um gigante gasoso, a imaginação no desenho dos animais esquisitos. Ignorem a história.
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