Aqui há uns tempos estava seguindo a pé para a faculdade (às 7 da manhã) quando, na rotunda de Entrecampos, vejo um senhor já idoso que andava de bicicleta (a rotunda estava cheia de carros) com um cesto de cada lado com uma baguete em cada um dos cestos.
Ali estava claramente um homem numa demanda épica. Todos sabem que muitos velhos só se levantam a tempo de ver a Praça da Alegria (e programas similares), que só começa lá para as 10 da manhã. Mas mesmo que este senhor fosse daqueles que se levanta "com as galinhas" isso não implicava que saisse de casa àquela hora, pegasse na sua bicicleta, se deslocasse a uma padaria (que por definição não estava a uma distância exequível de ser feita a pé) só por estar sem mais nada para fazer ou gostar muito de pão acabadinho de sair do forno.
Não, este senhor estava decerto envolvido em algo muito mais épico. Decerto que este senhor tinha de ter os 2 primeiros pães do dia feitos num forno a lenha, alimentado por lenha de carvalho-francês, feitos com uma mistura de 60% de farinha de trigo, 30% de farinha de centeio e 10% de farinha de milho, 2,3754875 g de sal por quilo de massa e um rácio de 2,25 quilos de farinha por litro de água. Além de que seriam cobertos com sementes de sésamo colhidas por virgens de 14 anos ao sol do meio-dia num dia de S. João que calhasse a um domingo. (Sim eu sei que isto não parece uma receita de uma baguete).
Este pão especial seria utilizado pelo idoso e extremoso senhor não apenas para a mera satisfação de um desejo tão básico como a fome. Não, ele utilizaria este maná dos céus para salvar a vida da sua netinha de 5 anos que foi amaldiçoada por 35278 bruxas (o número oficial de bruxas existente em todas as histórias infantis e registadas no cadastro do sindicato) que tinham tomado conta à socapa do livro mágico da moça. O livro mágico que ela iria utilizar para trazer a esta dimensão a divindade dos unicórnios, das fadas, dos arco-íris, dos cachorrinhos e de tudo quanto é fofinho e /ou cor-de-rosa (excepto a hello kitty, todos sabem que ela é demoníaca).
E por isto ele tinha de lhe fornecer este pão antes da alvorada. E ele não deixaria que a distância, os tubos de escape, os condutores enfurecidos, as buzinadelas, a falta de luz, o frio, a chuva, a neve, o granizo, o calor de 45ºC à sombra (OK até estava bom tempo nesse dia), os obstáculos, os passeios em paralelo, os carros estacionados em 2ª e 3ª fila, as manadas de bisontes em fúria, os tigres, os atuns, o sono, a fadiga, a fome, a sede, os ninjas, as balas de canhão, a hello kitty (ela é demoníaca, lembram-se?), meia banana, os dinossauros, os canibais, os vampiros, os lobisomens, os zombies, os yetis e os meteoritos em chamas a cair do céu o impedissem. Seria mais eficaz que os correios norte-americanos num mundo pós-apocalíptico. Por causa da netinha.
Não sei como é que esta demanda acabou. Entretanto cheguei à faculdade e fui obrigado a voltar à realidade... Ou voltar a um sonho mau em que me tinha de levantar às 6 da manhã, já não sei bem...
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
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